Benjamin Button, Forrest Gump e Edward Bloom (de Peixe Grande) tem uma coisa em comum. Todos são contadores de histórias fantásticas sobre si mesmos. Enquanto Zemeckis filmou seu Gump como um improvável herói norte-americano (e levou o Oscar de Melhor Filme), Tim Burton colocou Bloom num universo surreal. Já o diretor David Fincher tratou com bastante delicadeza um universo sutil onde se encontra um ser humano surreal.
Á beira da morte num hospital de New Orleans (durante a semana em que o Katrina passou e arrasou com o local), Daisy resolve revelar a sua filha a história do homem que foi o grande amor de sua vida. A partir de um diário escrito por Benjamin Button, conhecemos um ser humano especial. Ele narra seu nascimento, um bebê com todos os sintomas e doenças de um velho de 80 anos, o abandono do pai biológico, os cuidados de sua mãe adotiva, seus primeiros anos de convivência num asilo, suas aventuras (inclusive amorosas) até seus últimos dias de vida.
As duas parcerias anteriores entre Brad Pitt e o diretor David Fincher já haviam gerado obras-primas do cinema do século XX. Seven e Clube da Luta tinham em comum a violência acentuadamente explícita e o estudo sobre as motivações de um ser humano aparentemente desiquilibrado que questiona as atitudes das pessoas num universo em que ele não conseguem de encaixar. Já O Curioso Caso de Benjamin Button, apesar de ser todo ambientado no mesmo século XX, se trata de uma fábula bastante sóbria, onde a violência é praticamente inexistente (duas cenas de guerra, e só!) e o ser humano, apesar de ter todas os motivos para não se encaixar em seu Universo, se adapta facilmente e praticamente não sofre pressão dos que o rodeiam.
David Fincher convocou Eric Roth para o roteiro, pois ele já havia escrito algo semelhante em Forrest Gump (que lhe rendeu o Oscar). Roth, adaptando um conto de F.Scott Fitzgerald, não se prendeu a mostrar como a sociedade aceitou Benjamin Button, mas como ele reagiu as situações comuns que as todas as pessoas passam na idade certa e ele teve que enfrentar com a aparência inversa. Os primeiros passos, a perda da virgindade, o primeiro beijo, emprego, sexo, bebedeira, etc. E claro, tendo boa parte do tempo como pano de fundo, seu amor por uma garota apenas cinco anos mais nova que ele, mas que só era encarado dessa forma pelo próprio casal.
É um grande filme. Provavelmente o maior espetáculo de cinema já criado por David Fincher. Tudo em seu devido lugar. Fotografia perfeita, abusando das sombras e cores do céu de New Orleans. Edição magistral, que mostra a passagem do tempo de forma bastante clara, sem precisar se valer de datas na tela, mas que recebe um fabuloso auxílio da maquiagem merecedora do Oscar. Trilha Sonora onipresente e bastante singela Alexandre Desplat (A Rainha), que nos lembra a todo instante de que se trata de uma fábula.
Brad Pitt e Cate Blanchet se despem de qualquer vaidade e interpretam suas idades através do tempo de formas assustadoramente críveis. Ambos são fortes concorrentes ao Oscar.
O Curioso Caso de Benjamin Button é o primeiro filme imperdível do ano e, sem dúvida, uma dos melhores filmes desta década.
Reginaldo Zaglia
Reginaldo Zaglia, estudante de Jornalismo. Consultor de Cinema e Vídeo. Há mais de 12 anos informando, comentando e indicando filmes para os clientes 100% Vídeo.